Em Diário da Patetocracia, o autor José Carlos de Oliveira versa sobre temas e assuntos diversos, sempre a partir de um olhar detido sobre a realidade brasileira em tempos memoráveis – ano de 1968 – marcado pelos ditames da Ditadura Militar. Na referida obra, Oliveira anota, com crítica aguçada, seus pensamentos e suas impressões sobre a sociedade e a política da época, sob a ótica de um atento observador, que registra, numa espécie de diário, o dia-a-dia de uma nação vigiada e com severas restrições às liberdades de pensamento e expressão.
No diário do autor, aos capítulos são atribuídos nomes de meses do ano, e esses, por sua vez, são subdivididos em dias da semana. Nada por acaso: Oliveira inova com seu estilo simples, linguagem direta e não menos atenta ao cotidiano de uma República governada por “patetas”. Difícil não se encantar com sua objetividade e crítica ao narrar os fatos acontecidos em dias que a intolerância de um regime político aterrorizou um país.
Mês a mês, dia a dia, Oliveira anotou as características e conseqüências de um a Ditadura ou, melhor dizendo, de uma Patetocracia. E é acerca dessa nuance que teceremos alguns comentários sobre a obra.
Na crônica “A SOLUÇÃO FINAL”, datada em Domingo, 7 de janeiro, o autor observa o impasse existente entre o regime militar e os estudantes. A agudeza da crítica de Oliveira propõe que a solução para resolver o problema entre regime político e estudantes seria a pílula anticoncepcional, uma vez que livraria o Brasil da rebeldia e do desejo de liberdade dos jovens estudantes. “Não nascendo ninguém, ninguém cresce; não crescendo ninguém, em pouco tempo deixará de haver estudantes e o nosso querido Brasil entrará nos eixos (p.11).”
O cronista aponta, ainda, 12 propostas para solução de tal problema. Dentre as propostas, destacamos algumas e grifamos expressões carregadas de uma semântica própria de um regime político que impõe, unilateralmente, suas decisões.
3. Os estudantes serão convocados para a escola.
4. Fica proibido o uso de uniforme. E será obrigatório o uso de uma farda estudantil.
5. Os estudantes de primeiro ano farão continência para os estudantes do segundo ano. Os do segundo ano farão continência para os do terceiro ano, e assim por diante.
6. todo estudante é responsável pela segurança nacional. Se alguém chatear alguém na rua, os estudantes descerão a lenha no chato.
7. No primeiro ano do currículo, o aluno se chamará estudante raso. Ao receber o diploma: sargento-estudante.
10. Estudante reprovado é estudante subversivo. Cadeia para ele.
11. Estudante relapso é estudante corrupto. Pau nele. (grifamos)
Além de perceber que os tempos verbais das orações estão sempre no imperativo, também atentamos para o fato de que o desejo dos generais-presidentes era de fazer do estudante um soldado a serviço da Patetocracia. Sob o argumento de que era necessário lutar pelo país e defendê-lo, os militares lançaram campanhas midiáticas que aludiam a esse propósito. Não podemos esquecer da emblemática mensagem: “Brasil, ame-o ou deixe-o”, intencionalmente sugerida à época da Copa do mundo de 1970. O regime dos patetas soube utilizar o sentimento nacionalista dos brasileiros, no período da copa de futebol para enfatizar as ideologias da Ditadura.
Observamos, agora, “CONTRA A CENSURA, PELA CULTURA” (p.35), em que o cronista discorre sobre a militância de alguns artistas contrários à Ditadura. Essa era composta por censores que limitavam as expressões artístico-culturais do país, que, nas palavras do autor, deseja “pensar livremente”.
Oliveira observa a constância do regime e a mão pesada do Estado até mesmo sobre a arte:
No diário do autor, aos capítulos são atribuídos nomes de meses do ano, e esses, por sua vez, são subdivididos em dias da semana. Nada por acaso: Oliveira inova com seu estilo simples, linguagem direta e não menos atenta ao cotidiano de uma República governada por “patetas”. Difícil não se encantar com sua objetividade e crítica ao narrar os fatos acontecidos em dias que a intolerância de um regime político aterrorizou um país.
Mês a mês, dia a dia, Oliveira anotou as características e conseqüências de um a Ditadura ou, melhor dizendo, de uma Patetocracia. E é acerca dessa nuance que teceremos alguns comentários sobre a obra.
Na crônica “A SOLUÇÃO FINAL”, datada em Domingo, 7 de janeiro, o autor observa o impasse existente entre o regime militar e os estudantes. A agudeza da crítica de Oliveira propõe que a solução para resolver o problema entre regime político e estudantes seria a pílula anticoncepcional, uma vez que livraria o Brasil da rebeldia e do desejo de liberdade dos jovens estudantes. “Não nascendo ninguém, ninguém cresce; não crescendo ninguém, em pouco tempo deixará de haver estudantes e o nosso querido Brasil entrará nos eixos (p.11).”
O cronista aponta, ainda, 12 propostas para solução de tal problema. Dentre as propostas, destacamos algumas e grifamos expressões carregadas de uma semântica própria de um regime político que impõe, unilateralmente, suas decisões.
3. Os estudantes serão convocados para a escola.
4. Fica proibido o uso de uniforme. E será obrigatório o uso de uma farda estudantil.
5. Os estudantes de primeiro ano farão continência para os estudantes do segundo ano. Os do segundo ano farão continência para os do terceiro ano, e assim por diante.
6. todo estudante é responsável pela segurança nacional. Se alguém chatear alguém na rua, os estudantes descerão a lenha no chato.
7. No primeiro ano do currículo, o aluno se chamará estudante raso. Ao receber o diploma: sargento-estudante.
10. Estudante reprovado é estudante subversivo. Cadeia para ele.
11. Estudante relapso é estudante corrupto. Pau nele. (grifamos)
Além de perceber que os tempos verbais das orações estão sempre no imperativo, também atentamos para o fato de que o desejo dos generais-presidentes era de fazer do estudante um soldado a serviço da Patetocracia. Sob o argumento de que era necessário lutar pelo país e defendê-lo, os militares lançaram campanhas midiáticas que aludiam a esse propósito. Não podemos esquecer da emblemática mensagem: “Brasil, ame-o ou deixe-o”, intencionalmente sugerida à época da Copa do mundo de 1970. O regime dos patetas soube utilizar o sentimento nacionalista dos brasileiros, no período da copa de futebol para enfatizar as ideologias da Ditadura.
Observamos, agora, “CONTRA A CENSURA, PELA CULTURA” (p.35), em que o cronista discorre sobre a militância de alguns artistas contrários à Ditadura. Essa era composta por censores que limitavam as expressões artístico-culturais do país, que, nas palavras do autor, deseja “pensar livremente”.
Oliveira observa a constância do regime e a mão pesada do Estado até mesmo sobre a arte:
Todo dia um pateta qualquer enfia sua pata numa peça de teatro e corta as frases que lhe parecem atentatórias à moral, aos bons costumes e à democracia. Não se passa uma tarde sem que outro pateta dê o ar de sua graça, cortando seqüências inteiras de filmes. A patetocracia não dorme em serviço (p.35).
Mais à frente, em 21 de março, o cronista questiona: “TODO PRESIDENTE DA REPÚBLICA, POR SUA NATUREZA, SERÁ NECESSARIAMENTE UM BRILHANTE CRÍTICO TEATRAL?” Oliveira continua a se referir à “tesoura” estatal – uma navalha que corta e fere as manifestações artísticas.
Esmagado pelo desalento, ainda me parece lícito fazer uma pergunta. Ei-la: o fato de um cidadão ser Presidente da República lhe dá autoridade para se intrometer em questões de expressão artística? (p. 53)
Em face de tantos desrespeitos à liberdade de um povo, Oliveira visualiza um futuro sombrio para os filhos da Ditadura. A insensibilidade e indiferença do general-presidente, Costa e Silva, muito contribuem à hostilização da sociedade.
Não temos futuro algum para oferecer às nossas crianças. Os garotos ricos – em minoria, é verdade, mas a minoria que faz barulho – os garotos ricos querem outra coisa: uma sociedade, outro regime. Os garotos pobres precisam apenas de uma pistola e de um cigarro de maconha. (169-170).
Por fim, destacamos a crônica “AS FÉRIAS DO SR. CHARLOT”, que muito nos despertou a atenção pela reflexão que o cronista faz acerca do seu oficio, de sua colaboração para o progresso do país.
Uma lei trabalhista particularmente simpática proíbe que eu, durante vinte dias, colabore no progresso do meu país. Ficarei de papo para o ar, enquanto vocês se subdesenvolvem...(p.262)
A esse aspecto, o autor atrela sua sensibilidade, envolvida em uma crítica audaz diante da realidade do país. Ele enfatiza a necessidade de alimentar ilusões para uma sobrevivência menos sofrível do povo brasileiro. Para atenuar as dores da nação, “Ilusobrás” para todos!
Todos aqueles que se consideram desiludidos com o atual Governo passarão a viver iludidos. A irrealidade tomará conta da nossa pátria, choverá feijão em Mato Grosso, o Exército e o povo marcharão para o futuro. O que está faltando a esse país é justamente a Ilusobrás, o sonho fabricado sem descanso, um ópio para o povo sofrido (p.262).
Encantados, encerramos esses breves apontamentos sobre Diário da Patetocracia. Sem dúvida, vale a leitura! Reflexões diversas podem ser suscitadas através da obra, que nos faz compreender o Brasil de ontem e de hoje.
Referêcia:
OLIVEIRA, José Carlos. Diário da Patetocracia: crônicas brasileiras 1968. Rio de Janeiro: Graphia, 1995

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